Thunderbolts*: por que este time de anti-heróis pode mexer no tabuleiro do MCU
Depois de um 2023 turbulento com greves e calendários remexidos, a Marvel agendou para 2 de maio de 2025 o lançamento de Thunderbolts*. A proposta é simples no papel e arriscada na prática: juntar personagens moralmente ambíguos que já circularam pelo MCU e colocá-los em uma missão de alto risco sob a tutela de Valentina Allegra de Fontaine. É um aceno direto aos fãs que pedem histórias mais pé no chão, com espionagem, política e consequências reais.
O projeto nasceu oficialmente no D23 2022, quando Kevin Feige apresentou a equipe e confirmou o diretor Jake Schreier (de Cidades de Papel e clipes de artistas como Kanye West e Haim). Desde então, o filme virou termômetro da chamada Fase 5: sofreu com atrasos por conta das greves de roteiristas e atores em 2023, passou por reescritas e ajustou sua janela de estreia. O objetivo agora é claro: entregar uma narrativa autocontida, mas conectada ao que veio de Viúva Negra, Falcão e o Soldado Invernal, Homem-Formiga e a Vespa e Hawkeye.
O asterisco no título — Thunderbolts* — virou assunto entre fãs. A marca apareceu em materiais promocionais e em feiras de cinema ao longo de 2024 e abriu margem a leituras: apontaria para um “projeto em construção”, um comentário meta sobre substitutos dos Vingadores, ou apenas um detalhe de identidade visual. Oficialmente, a Marvel não explicou. Mas a escolha combina com o tom da premissa: nada é exatamente o que parece.
Em termos de lugar na cronologia, o filme chega em um momento em que o MCU tenta recalibrar expectativas após a recepção irregular de alguns lançamentos recentes. A franquia precisa de uma história que caminhe com as próprias pernas e, ao mesmo tempo, libere espaço para movimentos maiores, como a reorganização do próximo Vingadores. Thunderbolts* pode ser essa ponte: um time “não-oficial” lidando com tarefas que os heróis clássicos talvez não aceitassem — ou nem pudessem assumir.
O paralelo inevitável é com Esquadrão Suicida, da DC, mas a comparação só vai até a página dois. A Marvel construiu essas peças ao longo de anos, com laços afetivos e conflitos internos já testados. Isso permite apostar menos em choque e mais em dinâmica de grupo: lealdades instáveis, humor agridoce e operações sujas à la Capitão América: O Soldado Invernal.

Elenco, bastidores e o que esperar da missão
O elenco reúne nomes conhecidos do público e personagens que ganharam força nas séries e filmes mais recentes. A formação anunciada inclui:
- Florence Pugh como Yelena Belova, a nova Viúva Negra;
- Sebastian Stan como Bucky Barnes, o Soldado Invernal tentando manter um código próprio;
- Wyatt Russell como John Walker, o Agente Americano em busca de propósito e validação;
- David Harbour como Guardião Vermelho, veterano com ego e cicatrizes de Guerra Fria;
- Hannah John-Kamen como Fantasma (Ghost), marcada por traumas e instabilidade quântica;
- Olga Kurylenko como Treinadora (Taskmaster), agora em rota de reconfiguração após Viúva Negra;
- Julia Louis-Dreyfus como Valentina Allegra de Fontaine, a estrategista por trás da equipe.
Nos bastidores, Jake Schreier conduz o tom de ação e intriga. O roteiro passou por nova lapidação com Lee Sung Jin (Beef), chamado para afinar personagens e ritmo depois das greves. Esse movimento aponta para uma prioridade: dar unidade a vozes que vieram de projetos diferentes, com arcos próprios e traumas distintos. Sem essa costura, o filme viraria colcha de retalhos.
Um ponto quente é a presença do Sentry, personagem que flerta com o nível de poder dos deuses do MCU. Steven Yeun esteve ligado ao papel, mas deixou o projeto no início de 2024. Meses depois, a imprensa de Hollywood reportou que Lewis Pullman assumiu o posto — uma mudança que pede ajustes de roteiro e escalação de cenas. Caso se confirme, o Sentry não é só um vilão: ele tensiona a lógica de missão tática. Como conter um ser quase imbatível sem recorrer a deuses, magos ou um Hulk à mão?
Sobre a trama, o estopim mais provável é uma operação encabeçada por Valentina, com objetivos que misturam “segurança nacional” e agenda pessoal. O time deve lidar com zonas cinzentas: acordos secretos, listas negras e adversários que não usam uniforme chamativo. Bucky é a âncora moral que conhece o preço da manipulação; Yelena equilibra humor ácido e competência letal; Walker quer redenção, mas a qualquer momento pode explodir. Em paralelo, Fantasma e Treinadora trazem o drama do condicionamento: até onde vai o livre-arbítrio quando seu corpo foi programado para obedecer?
O MCU plantou esse terreno com calma. Yelena entrou em Hawkeye para resolver questões de família; Walker saiu de O Falcão e o Soldado Invernal meio herói, meio pária; Valentina costura convites e dossiês desde a cena pós-créditos de Viúva Negra. Thunderbolts* é o payoff dessa trama de bastidores. Se funcionar, abre caminho para missões seriadas no cinema e na TV, com rota de colisão com outras frentes, como Demolidor e o núcleo urbano de Nova York.
O contexto industrial pesa. O calendário da Disney sofreu reencaixes, e a Marvel adotou uma estratégia mais contida: menos lançamentos simultâneos, foco em qualidade e continuidade criativa. Thunderbolts* herdou essa filosofia. A ideia é lançar um filme com cara de thriller de equipe, de orçamento controlado — pelo padrão do MCU — e efeitos a serviço da história, não o contrário. Depois do desgaste com alguns efeitos digitais, essa mudança de ritmo pode fazer diferença na recepção.
Outra leitura em alta é a etiqueta “busca pelos Novos Vingadores”. Não se trata de copiar o time original, mas de testar novos centros de gravidade. Quem puxa a conversa? Quem segura a moral do grupo? Em 2012, Tony Stark e Steve Rogers formavam o eixo. Em 2025, esse equilíbrio pode nascer em outro lugar — talvez de uma anti-heroína carismática, de um soldado cansado de ordens, ou de um antagonista tão poderoso que obrigue ex-inimigos a cooperar.
Se a Marvel acertar na química, o filme pode devolver ao público o prazer de acompanhar uma equipe lidando com conflitos internos claros, objetivos difíceis e humor que não desarma a tensão. O segredo está no básico bem feito: roteiro que enxerga as pessoas por trás das máscaras, ação que conta história e escolhas que cobram preço. Com isso, Thunderbolts* tem chance de ser mais que um “interlúdio” da Fase 5 — pode virar o ponto de virada que o estúdio precisava.