× Vale Tudo Críticas UFC Casa Branca Flamengo Público Baixo Vilão Vale Tudo

Ex-ouvidor: gestão Tarcísio causou pior crise de segurança em SP

Ex-ouvidor: gestão Tarcísio causou pior crise de segurança em SP
Gisele Henriques 29 junho 2026 0 Comentários

Quando Benedito Mariano, ex-ouvidor das polícias de São Paulo e coordenador do IREE, afirmou que a atual administração estadual enfrenta "uma das piores crises na segurança pública" da história recente, o eco foi imediato. A declaração, feita em entrevista ao Brasil de Fato em maio de 2026, não é apenas uma opinião isolada; ela resume um consenso crescente entre especialistas, sindicatos e ouvidores sobre a gestão do governador Tarcísio Gomes de Freitas. Os números são brutais e não deixam margem para ambiguidade.

Aqui está o dado que define a gravidade da situação: entre 2022 e 2026, o número de mortes em ações policiais no estado de São Paulo disparou exatamente 93,2%. Só no primeiro trimestre de 2026, foram registradas 142 mortes por intervenção policial — cinco a mais do que no mesmo período do ano anterior. Não se trata de flutuação estatística. É uma escalada sustentada da violência institucional.

O diagnóstico de crise institucional

Mariano, que conhece os bastidores da segurança pública como poucos, detalha que a crise não se limita aos números. Ela se manifesta em "operações absurdas", caracterizadas pelo uso desproporcional da força letal. Segundo ele, há um fortalecimento paralelo do crime organizado e da corrupção dentro das corporações, agravados por uma instabilidade administrativa crônica.

O problema, segundo o especialista, é estrutural. As constantes trocas de comandos na Polícia Militar e nas demais agências geram uma desconexão perigosa. Planos de segurança são interrompidos, estratégias de redução de violência são abandonadas e a instituição perde sua bússola. "Hoje nós temos uma crise da maior polícia militar do país, com ações que têm característica de milícia e não de polícia", afirma Mariano. Essa comparação com grupos paramilitares é grave e sugere uma erosão dos princípios democráticos no interior da força armada estadual.

Dados que expõem a letalidade

Para entender a magnitude, precisamos olhar para a cronologia construída por diferentes fontes confiáveis. Um levantamento exclusivo da Ouvidoria das Polícias, citado pelo portal PlatôBR em dezembro de 2024, mostrou que a letalidade subiu 62,89% entre 2022 e outubro de 2024. O salto foi de 415 mortes para 676.

  • Região de Santos: O ponto mais crítico identificado foi na Baixada Santista, onde as mortes por ação policial aumentaram 207%. Mais que triplicar.
  • Denúncias: Houve um aumento de 40% nas reclamações de cidadãos contra abusos policiais.
  • Afastamentos: Em apenas 30 dias, no final de 2024, 45 policiais foram afastados por envolvimento em episódios violentos.

Claudio Silva, também conhecido como Claudinho, outro ex-ouvidor das polícias, reforça esses dados em entrevistas recentes. Ele aponta que, sob a liderança de Tarcísio e do secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite, o governo transmite mensagens subliminares de "impunidade e imunidade" à tropa. "As pessoas não estão se sentindo mais seguras, as pessoas não estão se sentindo mais protegidas", diz Silva, destacando o abismo entre a retórica oficial e a realidade vivida nas ruas.

Críticas à liderança e tentativas de controle

A crítica não é apenas externa. Vem de dentro da estrutura de fiscalização. Cláudio Aparecido da Silva, chefe da Ouvidoria em determinado período, denunciou publicamente a tentativa do Executivo de criar uma ouvidoria paralela, subordinada diretamente à Secretaria de Segurança Pública. Na visão dele, isso seria uma sabotagem à autonomia da fiscalização e um passo para esconder abusos.

Em dezembro de 2024, Cláudio Aparecido chegou a encaminhar um pedido formal ao procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, solicitando a investigação do governador Tarcísio de Freitas por suposta responsabilidade na política de morte. A acusação é séria: a estratégia de segurança estaria priorizando a eliminação em vez da preservação da vida.

Outro nome importante nessa narrativa é Mauro Caseri, ouvidor das polícias em 2025. Ele criticou duramente a gestão, afirmando que ela não vê a vida como prioridade. Caseri lembrou a Operação Verão, uma das mais letais da história recente do estado, como exemplo do modus operandi que continua vigente.

O impacto social e político

O impacto social e político

Quem paga o preço dessa crise? A Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) destaca que a violência atinge desproporcionalmente a população trabalhadora, especialmente nas periferias urbanas. Não é apenas uma questão de estatísticas frias; é sobre vidas cortadas em comunidades que já sofrem com a ausência do Estado em outras áreas.

Do lado político, a pressão cresce. Em junho de 2026, Tarcísio de Freitas reconheceu publicamente, em rede social, o "fracasso da segurança pública" ao pedir desculpas pela onda de roubos de celulares. Foi um momento raro de vulnerabilidade. Mas críticos, como o deputado estadual Emídio de Souza (PT), argumentam que a aposta em Guilherme Derrite foi um erro estratégico que tornou a polícia "mais violenta" sem necessariamente mais eficaz.

O cenário é complexo. Por um lado, há a admissão de falhas pelo próprio governador. Por outro, a continuidade de indicadores alarmantes de letalidade. A pergunta que fica é: haverá mudança real de rota ou apenas ajustes cosméticos?

Perguntas Frequentes

Qual foi o aumento percentual das mortes em ações policiais desde 2022?

Entre 2022 e 2026, o número de mortes em ações policiais no estado de São Paulo aumentou exatamente 93,2%, segundo dados citados por Benedito Mariano e confirmados por entidades como a CTB. Apenas no primeiro trimestre de 2026, houve 142 mortes.

Por que especialistas usam o termo "milícia" para descrever a PM de SP?

Benedito Mariano utiliza essa expressão para destacar que parte das ações da Polícia Militar tem características paramilitares, com uso excessivo de força letal e falta de controle institucional, semelhantes às práticas de grupos ilegais, em vez de seguir protocolos de policiamento preventivo e protetor.

Qual a região do estado mais afetada pela letalidade policial?

A região de Santos, na Baixada Santista, foi apontada como a mais crítica, com um aumento de 207% nas mortes causadas por ações policiais entre os períodos analisados. Claudio Silva também reforça a concentração de violência nessas áreas litorâneas.

O que foi a tentativa de criação de uma ouvidoria paralela?

Cláudio Aparecido da Silva denunciou que o governo tentou criar uma nova ouvidoria subordinada diretamente à Secretaria de Segurança Pública. Isso enfraqueceria a autonomia da Ouvidoria atual e da Corregedoria, dificultando a fiscalização independente de abusos policiais.

Houve algum reconhecimento oficial do fracasso da política de segurança?

Sim. Em junho de 2026, o governador Tarcísio de Freitas pediu desculpas publicamente pelos roubos de celulares, admitindo implicitamente o fracasso da segurança pública em proteger os cidadãos contra crimes patrimoniais comuns.

Postagens Similares

Impostômetro bate R$ 1,2 trilhão em abril e marca 20 anos em São Paulo

O Impostômetro da ACSP registrou R$ 1,2 trilhão em tributos até 20/04/2024, 8,6% acima de 2023, e celebra 20 anos com estudo sobre a carga tributária brasileira.